• Milena Pontes

Por que ainda não fazem sapatilhas para bailarinos negros?

Atualizado: 26 de Ago de 2018


Gosto de  observar os aspectos que fazem a arte do ballet atravessar gerações, moldando suas tradições para caminhar junto aos anseios da sociedade e até que ponto realmente se aproximam de algumas questões.

 Recentemente a matéria qual traduzi e adaptei aqui abaixo me chamou muito a atenção, ela trata da necessidade de haver sapatilhas "cor da pele" para bailarinos negros... Um ponto que a primeira vista parece muito superficial e atrasado (como assim isso ainda não existe?) mas que nos convida a pensar sobre o mundo do ballet desde as primeiras concepções até os dias de hoje - quando se fala tanto em dança como instrumento de inclusão social e quando o número de  marcas de artigos para dança têm se multiplicado. 


Por que eles não fazem sapatos para bailarinos negros?

O mundo do ballet é frequentemente criticado por ter um problema com a diversidade. Mas poderia um pequeno capricho ser um símbolo das barreiras que enfrentam os dançarinos negros?

 O Bailarino Eric Underwood estava em turnê no verão passado no sul da Itália quando se atentou para este fato: 

Ele é negro, e como solista do Royal Ballet precisa muitas vezes usar sapatos da cor da sua pele para algumas performances. Mas ao entrar em uma loja de artigos de ballet as únicas opções são beges e rosa.    


Geralmente, não há nada para bailarinos negros.​

Sapatilhas são feitas em tons de bege para que se misturem a pele do dançarino para ao olharem dar a ilusão que estão com os pés descalços.

"Em vez disso eu tenho que maquiar minhas sapatilhas antes que eu possa entrar no palco", explica:
 "É um processo confuso que pode demorar de meia  a uma hora, e eu preciso repeti-lo regularmente, pois a cor sai facilmente durante as apresentações."

Esse ritual  provou ser uma dor de cabeça em particular na Itália - com o calor e a inconveniência do gasto em torno  de produtos o suficiente. Underwood usa sapatos para até quatro dias, mas muitos dançarinos os usam em uma única apresentação antes de descartá-los.

Underwood levou esse questionamento para o Instagram e deu vazão à sua frustração quando postou um vídeo de si mesmo aplicando make-up nas sapatilhas. Ele implorou aos fabricantes que o  ajudassem.



 E ele não está sozinho nessa; Brooklyn Mack, um dançarino do Washington Ballet, usa tinta acrílica para seus sapatos em vez de make-up. "Maquiagem é oleosa, e a sensação de que você está deslizando sobre o gelo é o pior pesadelo de um dançarino", diz ele.

 Nem todas as respostas ao post de Underwood foram positivos. A companhia de ballet russo disparou de volta que os dançarinos negros deve apenas usar sapatos pretos comuns.

"Fiquei chocado e ofendido - me fez sentir como se não reconhecessem  a presença de pessoas que não eram brancos dançando ballet", diz Underwood.
"Não encontrar sapatilhas no tom da sua pele é um lembrete de que você é uma anômalia e que não têm a mesma consideração que outros dançarinos."

Mas  uma empresa respondeu de forma prositiva e ao longo dos últimos meses a Bloch está trabalhando com Underwood para produzir o que afirma ser a primeira sapatilha no tom da pele negra de ballet do mundo. A cor foi chamada de "Eric Tan", e em breve estará à venda.




 O significado do novo sapato vai além do puramente prático para Underwood e alguns outros bailarinos. 

"O simples reconhecimento de que há uma necessidade de um novo tom de pele é inovador no mundo do ballet", explica Underwood. Ele espera que outros fabricantes sigam o exemplo.

 Underwood diz que nunca teve que se preocupar sobre como se destacar, isso é mais difícil para as mulheres negras no corpo de baile - os membros de uma empresa que dançam juntos em um grupo - onde a uniformidade é valorizada.

Cira Robinson, uma artista sênior do Ballet Black, pode recordar-se na escola nos EUA - vestindo calças cor de rosa e sapatos cor de rosa como seus colegas, o que era muito estranho.

 Uma vez que ela mudou-se para o Teatro Escola de Dança do Harlem passou a usar calças marrons com sapatos marrons, criando a linha contínua desejada a partir da perna até o pé. 

O balé clássico é conhecido por suas princesas e cisnes brancos. Jennifer Homans, fundadora e diretora do Centro de Ballet e Artes da Universidade de Nova York, é frustrada pelo conservadorismo do mundo ballet.

"As principais companhias de balé do mundo estão fazendo esforços enormes para segurar o passado e o chamado Ballet Blanc - danças do século 19 com um elemento etéreo, onde os dançarinos estão trajados de branco, e eram tradicionalmente realizada por pessoas de pele branca ."
"As companhias de ballet hoje querem ser parte da sociedade contemporânea em que vivemos? Se a resposta for sim, eles precisam começar a olhar com um pouco mais de proximidade para a sociedade."
Mack concorda. "A ideia de uniformidade, a necessidade de todos a mesma aparência, ainda permeia o mundo do ballet."

A estrela do ballet  Misty Copeland fez história na dança a dois anos atrás, quando realizou os papéis principais em O Lago dos Cisnes.




Elas desafiaram a percepção do mundo do ballet clássico! Na foto acima, Misty Copeland e Lauren Anderson , a primeira negra a se tornar a primeira bailarina de uma grande companhia.

Foi a falta de bailarinos negros que provocou a criação de Ballet Black em 2001 - uma empresa especialmente para as minorias étnicas. Seu fundador Cassa Pancho tinha sido um estudante na Royal Academy of Dance e planejou entrevistar bailarinas negras como parte de sua dissertação final, apenas para descobrir em que ponto não havia nenhum na Grã-Bretanha.

O objetivo final Ballet Black está em ver uma mudança fundamental no número de dançarinos negros e asiáticos em companhias de ballet ", tornando - o maravilhosamente desnecessário", de acordo com sua declaração de missão.


"Acho que sapatos como estes estão bem atrasados", diz Robinson. "Eu sei de incontáveis bailarinos que sempre tiveram Pancake em seus sapatos, tornou-se um ritual, e o custo acrescenta-se a nós."
"Há dançarinos suficientes lá fora, para justificar uma opção mais variada de cores de calçados - mais do que apenas o chamado 'nude’, porque nem todo mundo é esse tom de 'nude’.”
"É maravilhoso, e soa muito emocionante para a conveniência mais do que qualquer coisa", diz Lawrence. "A necessidade de diversidade é reconhecida cada vez mais no mundo do ballet - é um assunto delicado para algumas pessoas e ainda há uma série de barreiras."

Ele cita a natureza de  público de elite, o custo de ballet e as dificuldades em superar o estigma de obter jovens interessados ​​no ballet com outros exemplos. Se a sapatilha se tornar um ponto para se falar e promover a consciência isso só pode ser uma coisa boa, acrescenta Singleton, embora ele nunca tenha se sentido discriminado.

Calvin Real faz parte do corpo de baile do American Ballet Theatre e pinta seus sapatos em vez de tentar misturar diferentes tons de maquiagem. Quando adolescente, ele tinha outros colegas negros em suas aulas de ballet, mas quanto mais ele avançava, mais o número de dançarinos negros em torno dele declinava.

Há tantos outros desafios e elementos que estão à frente de nós e pequenas coisas como esta fazem a diferença.

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