Martha Graham sobre a influência da dança moderna no balé clássico. Um texto de 1965.

São incontáveis as de frases soltas de personalidades da dança que vemos nas redes sociais todos os dias. Comecei a buscar mais textos completos, para quem sabe, me aproximar de quem de fato foram, e ir além da data de nascimento e morte em de suas histórias.


Encontrei recentemente o texto abaixo, um prefácio no livro Ballet d'aujourd'hui por Serge Lido publicado em 1965.


"Quando me pediram para escrever um prefácio para este livro, me sugeriram que falasse sobre a influência que a dança moderna teve no balé clássico. Não vi como fazer isso; estou profundamente envolvida. Trabalhar na dança, vivê-la tão intimamente não me permite ser objetiva. Esta é tarefa do crítico, de quem passa a maior parte do tempo vendo tantos tipos de dança quanto possível, estudando-as, medindo-as. Nada disso um dançarino é capaz de fazer. Um dançarino está ocupado demais dançando.


Fora isso, acredito que de tudo, esse problema não é essencial. A dança como arte é um movimento absoluto, portanto a questão dos estilos não importa. Acredito que só existam dois tipos de dança, a boa e a má

Quando fazemos os outros sentirem a arte que amamos intensamente, nossas qualidades essenciais nos aproximam cada vez mais. Como todos os artistas, precisamos uns dos outros, não importa o quanto vamos em direções diametralmente opostas e não importa a distância que cada um de nós percorra, sempre acabamos nos enriquecendo e enriquecendo uns aos outros. Isso é o correto e a ordem das coisas.

Balé clássico, dança moderna, dança oriental, dança africana: há sempre algo a ser descoberto através de cada estilo, mas o único perigo é ser teimoso demais, considerando-os absolutamente perfeitos. Como a poesia, ficção ou drama modernos, pintura, escultura e música modernas, a dança moderna vem de formas existentes. Não há questão de destruir. As formas clássicas existiram em sua perfeição e ainda existem.

Cada um é livre para adotar seu próprio temperamento e ter sucesso por meio dele, se for suficientemente artístico.

A dança moderna é um pouco diferente das outras artes por ter sido criada por mulheres. É a primeira forma de arte em que as mulheres foram criadoras, inovadoras e dirigentes de escolas. Isadora Duncan, Ruth Saint-Denis, Mary Wigman: cada uma trabalhou de forma independente, cada uma mostrou um caminho a seguir.

Nem para elas, nem para nós, nunca houve a questão de buscar a originalidade a todo custo ou de ser iconoclasta. Simplesmente as formas existentes, mesmo as mais bonitas, não eram mais úteis. É uma história tão antiga quanto qualquer outra.

Muitas pessoas estão descobrindo que a diferença entre o balé e a dança moderna está desaparecendo cada vez mais. Provavelmente é verdade. Acho que o balé clássico nos provocou para que tivéssemos uma disciplina técnica maior e mais vigor do que antes. E acho que a dança moderna provocou o ballet, a explorar temas mais profundos e novos, a usar sua técnica e sua linguagem com mais intensidade, para chegar a um significado maior.

Mas ainda cabe ao crítico ter a última palavra . Por mim, por qualquer dançarino, seja japonês, siamês, balinês, indiano, russo, francês, inglês, americano, seja de qualquer nacionalidade ou tradição, o essencial dessa tarefa é dançar a cada momento com tanta verdade e tanta beleza quanto você puder fazer."

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