• Milena Pontes

Erick Swolkin - Talento brasileiro, em palco russo.

Atualizado: 13 de Set de 2018


O bailarino brasileiro Erick Swolkin  de apenas 25 anos é formado pela Escola Bolshoi do Brasil, e hoje faz parte do corpo de baile de ouro do Theatro Bolshoi da Rússia.       

Em 2011,  Erick  ingressou no Theatro Bolshoi  junto de sua namorada, a também bailarina e brasileira Bruna Gaglianone.  Eles foram os primeiros brasileiros a participar de um seleto e complexo concurso, onde somente cinco estrangeiros foram aprovados e passaram a fazer parte do Theatro. 


Em sua última vinda ao Brasil, tive o prazer de entrevistá-lo e saber um pouco mais sobre sua vida, carreira e curiosidades que podem nos aproximar um pouquinho  da realidade do ballet profissional em uma das melhores companhias do mundo. 

 Ainda criança você se interessou ainda mais pelo ballet  após assistir o  bailarino Vladmir Vasiliev em Spartacus. O que realmente te inspirou nesse momento e fez com que a sua paixão pelo ballet ganhasse força? 

  "Acredito que a masculinidade dos movimentos e por ser um ballet extremamente forte. O fato do protagonista ser um homem realmente me fez o ballet com outros olhos, pois até então, o que eu via era que no ballet tudo girava em torno do universo feminino. Ver Spartacus me deu a visão do quanto a figura masculina é fundamental."

E hoje, quais são os bailarinos  que você mais admira?

 "No inicio dos meus estudos ainda aqui no Brasil o Vladmir Vassiliev era sem dúvida meu grande ídolo, uma lenda do ballet e fundador da escola Bolshoi no Brasil. Minha admiração por ele continua, mas quando fui para Moscow passei a conviver e admirar muito o Lavrosky também, - (Mikhail Lavrovsky Ele é um mestre de balé / ensaiador com o Teatro Bolshoi desde 1987) que hoje é meu professor e com quem tenho oportunidade de aprender e trocar experiências."


Qual é o seu papel favorito?

"Spartacus claro!  E em  “Ivan o terrível”,  ballet que eu tenho oportunidade de dançar no corpo de baile  eu realmente adoro o papel que desempenho representando: O povo!"


Que conselhos ou dicas daria para quem está ensaiando este papel? 

"Como estes ballets tem a alma da cultura russa, eu aconselharia a se aprofundar  no contexto histórico, e buscar  a essência de cada movimento por que nada está ali por acaso. Tudo tem um sentido, e para colocar a sua emoção em qualquer papel e tornar o movimento orgânico  um bailarino precisa conhecer a obra mais a fundo. Isso vale para qualquer papel que esteja ensaiando." 


Algum personagem,  que você ainda não dançou, mas gostaria muito?

 "O Ivan de “Ivan o terrível”  e  Abderakhman do ballet Raymonda."


Qual é o seu repertório favorito para assistir?

"Estando na posição de corpo de baile, tem muitos momentos mesmo em cena  em que é possível assistir a alguns trechos. Em Lago dos Cisnes por exemplo devido aos papéis que eu faço, já me peguei contemplando o espetáculo ali em cena mesmo! Ainda mais estando por onde passam os melhores do mundo. 

 Mas para me colocar no lugar de platéia é Spartacus. Realmente é um ballet que me emociona muito, adoraria estar dançando ele, claro! Mas  por gostar muito da música também, eu consigo me satisfazer no lugar de espectador."


Qual a sua percepção sobre como o homem é visto hoje no ballet no Brasil em comparação a Rússia?

"Tem uma diferença enorme. Na Rússia um bailarino é visto mais ou menos como um jogador de futebol é visto aqui. Já aconteceu de quando eu disse que era bailarino do Theatro Bolshoi em um restaurante, não precisar pagar a conta. Já aqui no Brasil facilmente vão questionar sua opção sexual, além de não considerar a dança  uma profissão. Há o preconceito de achar que artista não trabalha!"  


Temos muitos bailarinos brasileiros ocupando lugares de destaque em ótimas companhias do mundo todo. O que os bailarinos brasileiros tem de especial? 

"A gente tem muita coordenação, plasticidade e facilidade em executar os movimentos. O próprio Vasiliev uma vez disse que; "O brasileiro foi criado para dançar".  

 E eu consigo ver essa diferença entre os meus colegas. A diferença na plasticidade do movimento é nítida."

E como partners? Os brasileiros  também se destacam?

"Eu tenho muita facilidade em ser partner. Agora, vai da técnica e preparo da escola.

 Brasileiros tem uma sensibilidade maior  e mais naturalidade com o contato,  e essa percepção da bailarina faz toda diferença em um pas de deux."


O que mais te marcou quando chegou em Moscou?

"O própria rotina no teatro! Me lembro sempre de uma música que diz: “Moscou não acredita em lagrimas, acredita no amor”. E pra mim é isso, não adianta chorar…Quando você ama algo, ama a sua profissão e o que você faz, você vai em busca daquilo e vai conseguir! E lá nada vem rápido. Você precisar trabalhar muito para conquistar seu espaço. Não existem atalhos!"


Se tratando de técnica masculina. O que você considera ser o diferencial do método Vaganova?

"Muito plié para bons saltos. A estrutura dos russos é mais longilínea mas eles buscam ficar mais fortes, e eles saltam muito alto.  Eu aprendi a técnica Vaganova aqui no Brasil, mas lá no teatro eu vi que isso é muito mais forte. Então tive que buscar isso lá no inicio da minha rotina… desde o meu primeiro plié na barra, alongar bem o tendão de Áquiles. Tive que reaprender para aprimorar a força dos meus saltos. Pode parecer uma besteira por ser um passo aparentemente básico, mas definitivamente é muito importante."


Existe muita concorrência dentro do Theatro?

"Sim, mas entre os rapazes é mais saudável. Um homem ajuda mais o outro, quando alguém precisa repassar uma nova coreografia por exemplo. Não que a concorrência entre as meninas seja desleal, mas elas buscam mais destaque… são mais competitivas." 


Você acha que as pessoas super estimam a vida de um bailarino no Theatro Bolshoi?

"Com estes cinco anos já em Moscou, estou bem acostumado com o ambiente então é difícil perceber esse “glamour”. Mas quando eu sonhava com a possibilidade de dançar no Bolshoi eu também idealizava muitas coisas e acho legal os jovens bailarinos terem isso, porque alimenta o sonho. 

Quando cheguei, me lembro de ter medo de dançar naquele palco. O teatro é íntimidador, e a platéia é muito exigente, até os mais leigos sabem quem compôs a música, a diferença entre os coreógrafos… a história do ballet é realmente parte da cultura russa e não é só conhecida por quem trabalha no meio." 

Nesta vinda ao Brasil, o casal de bailarinos visitou o projeto Novos Sonhos que oferece aulas de ballet entre vários tipos de assistência as crianças da região da Cracolândia em SP. 

 Como foi o contato com o projeto Novos Sonhos e o que buscaram passar para as crianças em tão pouco tempo?  

"Foi muito legal. Foi uma surpresa, pensamos que as crianças não iam  nos aceitar  muito bem  porque pra elas somos estranhos. Mas foram muito carinhosas e receptivas. 

Eu reconheço a importância desse tipo de encontro, porque a escola Bolshoi em Joinville trabalha muito com inclusão social, e hoje  apresentar o ballet para um criança  pode mudá-la  como cidadã, além de formar bailarinos, o ballet  forma uma platéia, e sem dúvida cada uma delas será alguém que lá na frente vai olhar  o ballet com uma visão diferente e sem tanto preconceito. 

 Foi bem rápido apenas uma aula, mas tentamos passar o ballet como uma arte acima de tudo. A técnica é muito importante, mas sem emoção o ballet perde seu significado."

Qual o pas de deux que você mais gostou de dançar com  a Bruna?

"Spartacus, o pas de deux do segundo ato ainda na Cia Jovem da Escola Bolshoi em Joinville. É especial porque foi um grande desafio pra mim. Estávamos deixando a escola, então não queriam que ensaiássemos muito, afinal tínhamos que estar preparados para o Theatro e não podíamos nos machucar. 

 Então ensaiamos sozinhos, e isso deu um gosto  especial de realização com a aprovação do diretor."


O que você mais admira nela como bailarina? 

"O caráter e a determinação. Ela chega a ser chata quando quer algo, e já tem um plano pra tudo. Eu sou mais tranquilo, vou deixando a vida acontecer." 


Que conselho daria aos garotos que estão começando no ballet? 

"Não desistir! No Brasil é muito difícil ser bailarino… A competição vai existir em todo lugar, mas você precisa trabalhar isso dentro de você, dançar por você. As vezes até as pessoas mais próximas como seu pai ou a sua mãe podem vir a questionar esta escolha como profissão. E nada vai acontecer de cara, ballet é a arte da repetição e persistência. Pode ser clichê dizer: Não desista! Mas na dança, você precisa ter isso em mente todo o tempo, o preconceito atrapalha muito. 

 Eu sempre tive muito apoio do meu pai, ele sempre disse o quanto acreditava em mim." 


Você busca referências como artista em livros ou filmes?   

"Assisto muitos filmes e tenho o hábito de ler, no momento estou lendo 1984 -  que aborda temas mais políticos e vivendo na Rússia me faz ter outras perspectivas.

 Leio muito pouco sobre ballet, mas li Fundamentos da dança clássica inteiro, e muitas vezes ainda o consulto. A técnica está no corpo, mas é preciso saber o caminho e como explicar o que você está fazendo. O movimento acontece primeiro na cabeça até chegar no corpo.

 Sobre fillmes eu adoro histórias épicas, Senhor dos Anéis e Game of Thrones estão entre os meus preferidos. O ballet também encanta pela fantasia e por retratar uma outra época, então acho que isso tem uma ligação." 


O que mais gosta em si mesmo como bailarino?

"Sou muito persistente, e tenho muita disciplina. Eu amo fazer aula… faço aulas todos os dias. Gosto muito de estar no palco, então se disserem que vou ser solista mas vou estar em apenas dois espetáculos por semana, isso vai me matar. Eu prefiro estar no corpo de baile e dançar todos os dias. 

 Quando eu estou em cena e olho para aquela platéia eu fico todo arrepiado, quando eu entro e faço o reverence, posso ser a última fila do corpo de baile, mas eu dou o meu máximo. 

 Eu não consigo entrar no palco e fazer metade da força. Eu tenho essa consciência de ser inteiro quando estou no palco, de aproveitar cada momento em cena."


Qual foi seu momento de maior orgulho e realização?

"Quando tocou a música e eu estava pronto para entrar no corpo de baile em Spartacus já no Theatro Bolshoi…Simplesmente não conseguia parar de chorar. Naquele momento eu estava realizando um grande sonho!" 


Como vc se imagina daqui a 10 anos?

"Eu não imagino. Me dá uma certa angustia pensar a longo prazo por que nossa carreira é muito curta." 


Você gosta de dar aulas? 

Sim, gosto muito. Desta vez dei aula inclusive no Bolshoi em Joinville e ensaiei alguns meninos. É legal poder passar algo, eu acabo lembrando de muitas coisas. Explicar os passos as vezes é difícil pra quem já tem isso naturalmente no corpo, ensinar me dá uma visão diferente da técnica. 


Aqui no Brasil o Ballet adulto está crescendo dia a dia, como você vê esse interesse das pessoas em escolher o ballet como uma atividade?

"Como disse anteriormente: a dança está no sangue do brasileiro, e isso também permite que consiga assimilar o ballet até depois de uma certa idade, isso é uma vantagem que temos.  Na Rússia isso não existe porque as pessoas  vêem a dança como uma profissão e ponto. Não existe essa visão de fazer ballet como hobby…Não é um preconceito, é só uma outra perspectiva. Eu espero que essa onda continue, porque o ballet  é muito interessante e pode acrescentar muito em outros aspectos da vida das pessoas."


E ai gostaram? Erick, muito obrigada pela disponibilidade e atenção. É sempre ótimo conversar com você e conhecer um pouco mais desse mundo que é o Teatro Bolshoi.
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