• Milena Pontes

Yoshi Suzuki em entrevista exclusiva. O bailarino da São Paulo Companhia de Dança.

Atualizado: 25 de Mar de 2019


Sempre que assisto ao bailarino Yoshi Suzuki penso; - Que maravilha ter um bailarino como este nesta geração, e dançando aqui no Brasil.

 Yoshi é bailarino solista da São Paulo Cia de Dança  criada em janeiro de 2008, onde trabalha desde então. Considerado  hoje um dos maiores talentos da dança do Brasil mas tendo o seu trabalho reconhecido no mundo Yoshi contou para o blog antes de sair em turnê internacional, fatos que contribuíram para a construção da sua  carreira, suas dificuldades, momentos de maior realização, e compartilhou a admirável visão que tem da sua profissão e do lugar que hoje ocupa com técnica, profissionalismo, mas acima de tudo amor a arte.


Como você analisa seu o inicio de carreira? 

Y.S:  Não foi fácil, não estava preparado e muito menos entendia a profissão de um bailarino em um companhia de dança. Eu cresci participando de festivais de dança e colecionando prêmios uma realidade bem diferente da minha profissão atual; claro que participar de festivais foi muito importante na minha formação, principalmente pelo intercâmbio de informações, relacionamentos profissionais, e conhecimento que adquiri, mas trabalhar em uma companhia de dança vai muito além de colecionar medalhas. Foi difícil no começo entender e me enquadrar na linha de trabalho da companhia, tive que abrir minha cabeça para novas linguagens e entender que meu corpo é a minha ferramenta de trabalho, quanto mais técnicas de dança eu conhecer mais desenvolvo meu trabalho.

 As audições para escolha do elenco para os novos ballets sempre me deixavam muito nervoso, e as vezes frustrado, então eu comecei a olhar para mim como se fosse outra pessoa, e comecei a analisar como eu agia, meu comportamento, postura profissional, e principalmente os meus defeitos, é muito difícil se enfrentar, olhar para os seus medos e trabalhar em cima deles. Ainda assim eu agradeço por não ser fácil, aprendi muito com tudo isso e vou continuar aprendendo, a vida é assim, cheia de desafios. 

Podemos dizer que do seu inicio no ballet até a profissionalização houve um curto espaço de tempo.



Em algum momento você pensou em não viver de dança? Quais foram suas maiores dúvidas ou medos?

Y.S: Cheguei a pensar varias vezes, mas sempre me forçava a não pensar sobre isso, sempre tive um grande problema com a minha altura, tenho 1,65 sou bem baixo para a media de tamanho das companhias em geral, isso é uma grande limitação. Mas ao mesmo tempo foi essa limitação que me fez ser o bailarino que sou hoje. Em 2007 participei de um concurso em NY e fui um dos únicos brasileiros que não ganhou bolsa de estudos em escolas de dança fora do pais naquele ano, voltei muito chateado, queria parar de dançar, não queria mais escutar que era baixo demais, mas meu professor e minha família não permitiram e eu sou muito grato por isso. Em 2008 foi outro período no qual pensei em parar de dançar, estava morando no Rio de Janeiro, e esse ano era o meu prazo para conseguir dar um rumo a minha vida, me inscrevi para a audição da São Paulo Companhia de Dança e ganhei um contrato.

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O que te marcou na audição para a São Paulo Companhia de Dança? 

Y.S: A dificuldade e a duração com toda a certeza, foram dois dias intensos, mais de 800 candidatos. O primeiro dia era mais voltado para o ballet clássico, e o segundo dia dança moderna e contemporânea. Eu me lembro um momento no segundo dia quando todos já estavam muito cansados, tinhamos terminado de mostrar a sequência de moderno que acreditávamos ser a ultima, então depois de um breve intervalo a professora de moderno Daniela Stasi veio até nós e começou a passar outra nova sequência, era inacreditável, ninguém aguentava mais.

Qual o seu conselho para os bailarinos que vão prestar audição este ano?

Y.S: Procurem controlar o nervosismo e a ansiedade, e principalmente acredite em você, não existe padrão ou regra, apenas seja o melhor profissional que você pode ser, isso vai alem da capacidade técnica, pois a postura comportamento, tudo isso conta. 



Após estes nove anos, na SPCD qual o balanço que você faz ? 

Y.S: Agradeço por ter a oportunidade de crescer junto com a Cia., dancei obras de coreógrafos consagrados que nenhuma outra companhia brasileira oferece e o número de trabalhos e projetos que a companhia realiza me ensinaram muito, gostaria que cada vez mais as pessoas se aproximassem desse projeto que é de todos nós.


Quais foram  seus momentos de maior realização na Companhia?

Y.S:Tive vários momentos muito especiais para mim; quando fui escolhido para fazer o papel principal nos ballets La Sylphide e o Espectro da Rosa, ambos remontados por Mario Galizzi, eram dois dos papéis que eu mais sonhava em dançar desde a adolescência. Outro foi o dia em que fui promovido para Solista, logo após dançar os papeis que tanto queria, a diretora Inês Bogea me chamou para uma reunião e me deu a promoção.

Outro momento foi em um espetáculo que foi muito marcante para mim, foi quando meus avós me viram dançar pela primeira vez, eles moravam no Japão e nunca tinham assistido nenhum espetáculo meu, há 4 anos eles voltaram para o Brasil, fiquei muito emocionado de poder dançar para eles. 


O que você mais gosta na Companhia?

Y.S: O quanto ela produz. Eu sou uma pessoa inquieta por natureza, sempre procurando coisas novas para fazer, aprender, olhar, é assim que eu vejo o espirito da São Paulo Companhia de Dança também, nunca estamos parados, a equipe esta sempre cheia de tarefas, documentários, espetáculos, filmagens, fotos, palestras, isso torna tudo mais produtivo, e gera movimento, vida.  


Como é o seu dia a dia?

Y.S: Acordo as 8hs da manhã, tomo um café para acordar, e como bastante. Vou de bike para o serviço quase todos os dias, sinto meu corpo mais acordado para a aula de ballet quando ando de bicicleta. A aula começa as 10hs e dura em media 1h e 30min, depois temos ensaios de acordo com o proximo programa de espetáculos. Tenho uma pausa para o almoço das 14:00 ás 15:00 e mais ensaios até as 18hs. Meu horário na cia é até as 19:00 mas dificilmente estou fazendo alguma atividade física nesse horário, normalmente ele é preenchido com reuniõess ou videos. Vou para a academia sempre que tenho uma brecha nos ensaios, assim trabalho outro grupo muscular que sinto que esta deficiente no momento.


Como você enxerga o homem no ballet hoje? 

Y.S: Hoje em dia a sociedade aceita muito mais que antes, acredito que o ballet esta se popularizando e isso traz mais respaldo para a profissão, tenho o maior orgulho de dizer que sou bailarino.


Qual papel que sonha performar?

Y.S: O proximo, isso é o que procuro pensar agora, assim me dedico de corpo e alma para cada peça que for proposta para mim.  


Além da dança em si, de onde  mais vem sua inspiração como artista?

Y.S: De pesquisas, de livros, de desenhos, de filmes, dos amigos, as formas são inúmeras, é lindo pensar que qualquer coisas pode te inspirar a algo, as vezes um passeio com amigos te faz pensar sobre o papel que esta dançando, ja aconteceu comigo até na balada.


Qual o seu processo pessoal para viver um novo personagem? 

Y.S: Sempre faço uma pesquisa sobre o tema, caso o ballet tenha uma história eu sempre leio todas as versões que encontro. Procuro entender de onde o coreógrafo buscou suas referências, depois fico ensaiando em frente ao espelho, ou fico fazendo coisas do meu cotidiano mas pensando como aquele personagem faria.


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Yoshi Suzuki em Peekaboo, de Marco Goeke para a SPCD foto: Marcela Benvegnu

T4L: Qual a diferença que você mais sente quando dança fora do Brasil? 

Y.S: O tempo dos aplausos, que nada tem a ver com o fato da platéia ter gostado do espetáculo ou não, mas na europa principalmente as pessoas aplaudem por muito tempo, no Brasil é bem rapidinho, teve um espetáculo que nos aplaudiram por 15 minutos.

T4L: Qual a expectativa para a esta turnê internacional com a  SPCD?

Y.S: Só quero dar o melhor de mim, estou muito focado no meu trabalho, e que a cada espetáculo consiga me superar, manter o reconhecimento que a companhia tem e fazer com que cada vez mais pessoas se encantem pelo nosso trabalho

T4L: Por fim, qual o seu maior desejo com relação ao futuro do cenário nacional da dança? 

Y.S: Existe um documentário feito na Russia em que o repórter pergunta para as pessoas na rua qual o sonho de criança delas, quase todas as pessoas responderam ser bailarino. Meu desejo é que cada vez mais pessoas se aproximem dessa arte e sintam-se tocadas de alguma forma. 


Obrigado Yoshi, sucesso sempre!

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