• Milena Pontes

O ballet criado por Anna Pavlova e a sua relação com o Brasil

Atualizado: 25 de Mar de 2019


Todos conhecemos a bailarina Anna Pavlova e sabemos pouco do cenário do ballet clássico especificamente no Brasil, nos tempos passados. 

 Pois foram justamente  estes fatos que me entusiasmaram a escrever este artigo; falar sobre o único ballet coreografado por Pavlova (embora ela tenha arriscado em alguns divertissements este é considerado o único ballet coreografado por ela. E pasmem; a  estréia desta obra aconteceu no Brasil em 1919. 


ANNA PAVLOVA -  um pouco de sua história

“Em virtude de seu sublime entusiasmo e beleza, Pavlova nos levou a acreditar na vitalidade e alma dessa arte, pouco explorada até então” - autor desconhecido

Anna Pavlova nasceu em São Petersburgo em 31 de janeiro de 1882. Era filha única de pais pobres e teve o infortúnio de perder o pai quando tinha apenas dois anos. 

Com a idade de oito anos foi levada pela mãe para assistir a um espetáculo, o ballet era “La Belle au Bois Dormant” ( A Bela Adormecida), que a inspirou  de tal modo que resolveu tornar-se bailarina. 

 Aos dez anos entrou para a Imperial Escola de Bailado, e seus principais mestres foram: C.Johannsen,  P. A Gerdt, Evgenia Sokolova, Enrico Cecchetti.


Estreou no Teatro Mariinsky em 1 de junho 1899, e logo foi escolhida para pequenos papéis sem haver passado por um período de trabalho no corpo de baile. Com o correr do tempo tornou-se solista e,  finalmente, atingiu a categoria de primeira bailarina. 

Em um artigo intitulado "Terpsichora Reborn” ( Terpsicore Renasce - em referência a deusa da dança)  M. Sébastien Voirol escreveu:  “Anna Pavlova cria as emoções mais requintadas, principalmente por virtude de um brilho deslumbrante de uma qualidade raramente encontrada em circunstâncias similares: inteligência.

 "A  inteligência que ela evidencia, vem do seu coração."
Para nós além disso, a qualidade da alma e de seus movimentos tem o mesmo sinal de sua gentileza. Por essa razão, sozinha, e apenas pelo ritmo de suas atitudes, que atinge tão longe o ritmo da música, ela cria para nós arte sob uma forma impossível de comparar com qualquer coisa que pudesse ser nos dada por Phidias ou Da Vinci.” 

 Após várias excursões artísticas iniciadas em 1907, Pavlova fez sua estréia em Londres em 18 de abril de 1910, no Palace Theatre, ao lado de Mordkin e uma companhia de oito bailarinos.

 Em 17 de abril do ano seguinte voltou ao mesmo teatro e em outubro apareceu com a Companhia de Diaghilev, quando incarnou o papel titulo de Giselle, a Escrava de Cleopatra em Cleopátre, Armida em  Le Pavillon d’ Armide e dançou em Les Sylphides, e  no pas de deux "L'Oiseau Bleu” (Passáro Azul). 

 Em 1912, 1913 e 1914 tornou a visitar Londres, aumentando seu repertório e sua companhia, a qual, aos poucos, se tornou virtualmente britânica. De 1914 em diante sua vida foi uma série de extensas excursões através de todo o mundo, interrompidas apenas por periódicos regressos a Londres para rápidas apresentações, ajustes e repouso. 

Seu diretor musical o falecido Theodoro Stier, declara em suas memórias que durante os 16 anos em que esteve associado a ela, viajou 300.000 milhas, regeu 3.650 espetáculos e mais de 2.000 ensaios. Essas viagens eram de inestimável valor para a arte da dança pois ao mesmo tempo em que a dança de Pavlova dava grande prazer ao público em geral, ela se  tornou o modelo e a inspiração de muitas  jovens bailarinas. Em janeiro de 1931 foi para Haia a fim de dar inicio a nova turnê, mas contraiu um severo resfriado que se transformou em pneumonia de que veio a falecer no dia 23 do mesmo mês.

“Agil, esguia e cheia de vida. Pavlova  assim que começa a se mover parece prestes a abraçar o mundo inteiro e encerrar o infinito dentro do circulo de seus braços. Tudo nela é rima, ritmo e harmonia.” - M. René Jean, 1920

 Aqueles que nunca viram Pavlova dançar, assim como eu, poderão perguntar o que ela tanto fazia para ser considerada até hoje, tão maravilhosa. Acredito que não era tanto o que fazia, mas o modo como fazia. Muitos consideram que a definição mais sútil e feliz de  sua maneira de dançar seja a frase escrita por um escritor francês  que assim a designou: 

La danse de toujours, dansée comme jamais -  (A dança de sempre, dançada como nunca).

  Pavlova dançava com todo o corpo, do alto da cabeça à ponta dos pés. como deve ser!

 Dançava com vitalidade em abundância , com tamanho êxtase  espiritual, entregava-se tão absolutamente ao caráter da dança que se tornava um ser transfigurado. Em alguns relatos encontrei a seguinte descrição: “Ela se inflamava, ficava quase incandescente, por assim dizer, devido à pródiga efusão de sua energia nervosa e força muscular. Por vezes surgia apenas uma pálida luminosidade como em “A morte dos Cisne” enchia o espectador de uma deliciosa melancolia; outras vezes, como em "L'Automne Bacchanale" a cintilação esbraseia-se em chamas.

  Essas duas danças são pólos opostos e provaram a escala imensa de suas possibilidades.

 Pavlova foi também uma grande artista dramática, de recursos tão vastos quanto em sua dança. Ao falar dela em relação ao ballet clássico, deve ser feita uma menção especial ao seu poder criativo impressionante na pantomima. Durante este período, a tendência do ballet para se tornar um drama coreográfico se afirmou de maneira muito forte.

 Embora nesta ou naquela ocasião ela tivesse encarnado a maioria dos papéis célebres do repertório dos Bailados Russos Imperiais e houvesse aparecido com bonito sucesso em muitos dos bailados de sua própria companhia; raramente ela se aventurou no campo da coreografia, limitando-se suas realizações nesse a alguns poucos divertissements e a um bailado -  Folhas de Outono. 

 Ela não tentou ampliar o vocabulário da dança; julgou suficiente e dedicou todas as suas energias a aprender a falar com perfeição sua linguagem. Que tenha se saído bem sucedida, poucas ou nenhuma pessoa colocará em dúvida. 

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Visitas ao Brasil

1918:

Estreou no Rio de Janeiro em 4 de maio no Teatro Municipal dançando Amarilla, Flocos de Neve e Divertissements. 

1919:

 Voltou ao mesmo teatro e além de espetáculos exclusivamente de bailados tomou parte em várias óperas, entre as quais: Aida, Mefistófeles, Manon, Mosé, Thais, Guarani, etc 

Em outubro desse ano fez uma curta temporada no Teatro Lírico. De todas essas vezes trouxe como primeiro bailarino Alexander Volinine.

1919:

 Pavlova voltou ao Brasil e à Argentina e novamente precisava de novas obras. O mais importante foi a reformulação de Clustine de La Péri,  e a própria criação de Pavlova “Folhas de Outono’. Ambas foram fantasias balleticas tradicionais, embora muito diferentes na produção.  

1928:

 Despediu-se do Rio ao se apresentar no Municipal, tendo a seu lado Pierre Vladimiroff. 

Além dos bailados citados por Beaumont apresentou-se aqui: Chopiniana, A Noite de Valpurgis, Coppelia Giselle, Dionísio, Despertar de Flora, O último Canto, A Flauta Mágica, Campos Elíseos, Raymonda, Paquita, Don Quixote, La fille mal Gardée,  Bela Adormecida, Les Préludes, Ondines, La Péri e outros.

Folhas de Outono

Poema coreográfico em 1 ato

Libreto e coreografia de Anna Pavlova

Música de Frédéric Chopin.  Cenários de Castro. 

Estréia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 27 de setembro de 1919. 

Personagens

O Crisântemo | O Jovem Poeta | O vento de outono | As folhas eram representadas pelo corpo de baile.


Libreto

 A cena foi concebida com apropriadas tonalidades avermelhadas e douradas, representando um parque cujo principal ornamento é um belo Crisantemo 

 O devastador vento de outono varre o jardim, espalhando as folhas caídas e arrancando o crisantemo. 

 Um poeta, que passeia pelo parque, depara-se com a flor, apanha-a e a trata com terno cuidado.  Mas o vento torna a voltar e arrebata-a de suas mãos. 

 Desta vez o poeta leva a flor para junto de uma fonte, coloca-a sobre um macio banco de relva, e dispõe-se a ler. De novo o vento sopra a pobre flor e atira-a no meio de uma nuvem de folhas, que redemoinham em torno dela até que, fria e exausta, expira aos últimos raios do sol poente. 

 O poeta procura reanimar o moribundo crisantemo, mas, vendo que seus esforços são inúteis, parte em companhia da noiva que veio encontrá-lo.

 Em 6 de julho de 1939 foi dançado no Teatro Municipal do Rio, como homenagem a Pavlova, com Madeleine Rosay no papel do crisantemo, Yuco Lindberg (o Poeta) e Edgard SantAna (o Vento). A coreografia era de Maria Olenewa e os cenários de Raymond Deshays.


 Sua criação -  Folhas de Outono com música de Chopin, foi conservador, mas cativante. Além de dois importantes papéis masculinos, desafiou e mostrou o efeito total do corpo de baile como as folhas varridas pelo vento.

Interessada muito mais no aperfeiçoamento da técnica clássica existente do que na invenção de novas formas e etapas, Pavlova criou um balé requintado. Iluminado, por assim dizer, a obra era uma encantadora concepção na qual Pavlova oferecia uma bela interpretação do Crisantemo e o grande trabalho com o corpo baile. 

Pessoalmente ela devotava especial carinho a este bailado, e se esforçava para que fosse mantido um alto nível no desempenho.


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